terça-feira, 12 de junho de 2012

Reencontro III


Não quer acordar
Dorme finge e dorme de novo
Sente frio com o sol escaldante
e se cobre.

Tinha uma companhia
Quase desejada
Pouco fala, mas
agora mente mais.

Mentem ambos
e ambos sabem que ambos mentem
e até acreditam.

São profundos
Por se permitirem falar
Deveriam ter dito antes
precipitados
empolgados
vigorosos.

Maduros
não conseguem calar
São banais
Eu te amo.

Reencontro II

silêncio. até então não aprendera a calar. é covarde demais pra ensurdecer no silêncio, para se deixar silenciar. prefere falar. e o silêncio é tensão é, quiçá, tesão, incongruência, afinidade, incompreensão. o ar estava repleto de silêncio e sabiam que diziam tudo que merecia ser dito, eram sinceros no seu silêncio, no tédio um do outro, na falta de sentido, no fim. o melhor era silêncio. mas até então não aprendera a calar, e como não havia nada a ser dito, banal precipitou uma palavra.

acabou a sinceridade, ambos se abraçaram, se amaram e mentiram felizes.

Reencontro I

Tinha um riso farto
todo todo murcho
um jeito infeliz
de quem é amada
e uma companhia
quase desejada.

Quase se desejam -
antes abusam um do outro.
Por conveniência
diz-lhe que é profundo
- provavelmente
falava do tédio

Papo de alcova
surge quase nada
hora ou outra até esboçam uma risada
cansaço trabalho tempo tédio
sono.

Covarde fode rápido
diz que foi gozou mais de uma
e chorando pela covardia de ter sido quase
dorme.

Não quer acordar.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Epitáfio

E quando não restar saída solução
ou sanidade
Deus livre da pretensão de ser inesquecível!
contente de si sendo memória.
refluxo do eterno e fragmento de vida. recorte.
lembrável, é verdade
mas também
esquecível.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Das vestes e outras coisas

I

Poetas não se vestem de poeta
como médicos que saem a trabalhar
cheios de si em
trajes brancos .

Poetas não se vestem de poeta
como fazem os juristas
pomposos em
roupas abestadas .

Não se vestem de poeta
com a gente
simples
em uniformes - cara do patrão, cara da empresa .

Muito menos se vestem de poeta
como os ansiosos pelos ditames da última
moda .

Não, poetas não .

II
Poetas não se vestem de poeta
porque a sombra do cajueiro
era o repouso mais agradável do
CCSo e em seu lugar
construíram uma rampa
porque sentar na ágora do
CCH te faz parecer mais sábio
porque, até hoje, a PedeGinja
nunca tocou na UFMA ...

Poetas não se vestem de poeta
porque as rodas-de-samba sempre
são redondas no quintal lá de casa
porque as noites no INCULCAAR
sempre serão mágicas
porque as Confrarias vão rolar até que
no horizonte
o céu se distingua do mar ...

Poetas não se vestem de poeta
porque teu andar de lado
pulante e altivo
se tornou fotografia
porque a fita lilás em teu braço forte
te faz parecer frágil
porque os lençóis suados e quentes
ainda exalam nossos odores ...

Poetas não se vestem de poeta
porque ______________________________
_______________________________
______________________________ ...

III
Poetas saem às ruas .
ou ficam em casa .
nus .

quinta-feira, 1 de março de 2012

saudade e tormento

Passara tanto fluxo
tanto sentimento
e foram só uns quatro tempos

Uns quatro mil
momentos
para não enquadrar
o tempo
em dias que me atormento

E quanta poesia
quanto afago
visitei
E quanto tuas danças
me embalam as lembranças

E todos os teus laços
que desato a sorrir
e todos os instantes
que vivi dentro de ti

Passara tanto fluxo
e tanto sentimento
enfim,
só foram quatro
tempos
.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Meu lugar

Que lugar ingrato!
Que lugar canalha!

Eu que te falo
eu que te vejo
e tu que parada me tem
em mãos.

Que lugar canalha!
que lugar ingrato!

E se calo
teu silêncio môco me perturba
mais do que qualquer carão.

Sou eu o lugar de tua carência
de teu segundo frágil que não volta em dias
do vácuo doído que o outro deixou...

-É tudo pouco pelo meu sossego!

Eu quero o desejo castrado
que te faz formigar
quero ser o motivo
de tua insônia constante
quero o vôo mais alto
que teus pensamentos!

Voa comigo
e não falo nada em vão...

Vem, que calo um silêncio
mais sábio que todos os monges da terra
que todos os poetas da ágora
- Que todas as almas depenadas de paixão!

Mas tem que vir
e me dar a mão
ou, então, me enterra de vez
neste lugar
ingrato!